segunda-feira, 21 de agosto de 2017

DA CALMA E DO SILÊNCIO, de Conceição Evaristo

Fotografia: Clô Zingali


Quando eu morder
a palavra,
por favor,
não me apressem,
quero mascar,
rasgar entre os dentes,
a pele, os ossos, o tutano
do verbo,
para assim versejar
o âmago das coisas.

Quando meu olhar
se perder no nada,
por favor,
não me despertem,
quero reter,
no adentro da íris,
a menor sombra,
do ínfimo movimento.

Quando meus pés
abrandarem na marcha,
por favor,
não me forcem.
Caminhar para quê?
Deixem-me quedar,
deixem-me quieta,
na  aparente inércia.
Nem todo viandante
anda estradas,
há mundos submersos,
que só o silêncio
da poesia penetra.

In Poemas da recordação e outros movimentos. Belo Horizonte: Nandyala, 2008

domingo, 13 de agosto de 2017

NADA

Crônica publicada no jornal A Notícia em 12 de novembro de 2009.


Nada, além de ser o contrário de tudo, a resposta que você dá quando perguntam: “E aí, alguma novidade?” (e você não tem nenhuma), o vazio do espaço (que sabemos que não é vazio), o que tem na caixa de chocolate quando você chega pra pegar e não tem mais nenhum; é também uma carta do tarô.

 Tirar o NADA numa leitura pode gerar decepção. A pessoa paga um tanto pra se consultar com a cartomante ou aguarda horas numa fila pra falar com um guru não sei de onde que promete dar todas as respostas e a carta tirada é o NADA. 
Mas veja, fui fazer uma sondagem e localizei um significado da carta: shunyata. Um equivalente do inglês “nothingness”, que se você esmiuçar: nothing (nada) ness (partícula de negação). A negação do nada? O significado dela, basicamente, é o “tudo” que pode existir potencialmente no “nada”. Esse "tudo" são as possibilidades. O NADA pede um olhar para as coisas que estão ali contidas e que, talvez, não saibamos. Talvez porque, de tão ansiosos em enxergar ali respostas, cegamos e saímos esbofeteando o ar (só pra começar). Um dia um professor meu, falando sobre os mecanismos do estresse, fez uma analogia interessante: “O que é o estressado? O ansioso? É o sujeito que acelera o carro com o freio de mão puxado. Fica lá, injetando combustível, rosnando que nem louco e não sai do lugar.” Ou seja, o sujeito coloca uma energia danada na impotência. Termina o dia cansadíssimo e com sorte não tem uma pane no meio do caminho!

Deixando a carta de lado; a situação de se encontrar num sonoro e retumbante vazio, pode parecer igualmente devastadora. Olhar para os lados, todos eles, e não localizar nada onde se apoiar, não localizar saídas pode desestruturar. É aí, caro leitor, que está a mágica. Nesse escuro, nesse vazio ou nesse nada, é que estão as potencialidades.

Potencialidades são o avesso do nada. Mas, para acessá-las, é preciso mergulhar antes no silêncio que antecede o encontro. É preciso relaxar. Adentrar o silêncio. Respirar, que significa inspirar, expirar. É o que digo: tem de dar chance pro “azar”, certo? E fazer como dizia Dadá Maravilha: “Deixe a bola rolar em campo que ela tem pulmão”.

Temos de abrir espaço para que as possibilidades surjam e você as veja. Porque senão, elas até vêm, mas você não vê, tão louco que está articulando sem parar. E também tem um outro dizer ótimo: “Habian cerrado todas las salidas, però el escapou por uma de las entradas”. É isso. Certas coisas você tem de silenciar para ver.

Por isso, a beleza de se olhar o vazio. O nada. Porque ele pode fazer a conexão com o que há de mais impalpável em você. Com o seu “dentro”. Só nesse estado é possível enxergar potencialidades. Todo o mais são articulações inúteis sobre coisas que nos fogem. E não é preciso o tempo todo correr atrás das coisas. Sério! Na delícia do silêncio, no encontro de você com seu “dentro”, certas coisas caem no seu colo, tocam a campainha. Vamos escutar o vazio?

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

ODE ao BALDIO

Ilustração: Eva Armisén


pelo sulco do olho verte uma lágrima. ato ridículo e baldio como carta de amor nunca escrita. uma lágrima furtiva. rútila. apenas para edificar a dor: dar equilíbrio e resistência.

galhofeira, insiste em frente ao espelho; um tanto lânguida (vês?). amarra com arame as lacunas para estar assim: súbita e obscena. 

dedilhante, suprime o ar da palavra faz cardume de desejos em franca apnéia; divide o mar com arraias: heterônima e abandonada. cerzida e voadora.

depois, farpa os espaços por puro capricho. coloca a palavra deserto no meio da palavra água pelo prazer de ver tudo desandar. por delirar vítrea, viscosa e febril. 

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