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Mostrando postagens de Junho, 2017

SOBRE FERNÃO

Movimentos do Arqueiro Maior, recentemente, me colocaram na experiência de um voo do qual devo desfrutar pelos dias daqui em diante. Em tempos idos eu já havia lido "Fernão Capelo Gaivota". Do escritor americano Richard Bach, o ano da obra é 1970 e eu devo ter lido lá pela década de 80. Mas olhando daqui confirmo a ideia de haver um tempo certo para leituras fazerem sentido. Se ler Fernão naquela época fez algum sentido lá, eu não me lembro e daí quase concluo que não; ou se sim, o sentido estava soterrado debaixo de meu eu cebola. Enfim. Agora foi diferente. Agora fez muito sentido. E todo dia esse sentido se refaz e amplia. Feito o AmOr.
Quase todos os dias, principalmente naqueles em que caminho na praia, Fernão se recria diante dos meus olhos que o seguem ávidos. Fernão se desdobra em criatura que ama a liberdade e o voo. Um voar desatrelado da ideia de apenas servir à necessidade de buscar alimento. Um voo de desejo que o coloca em processo de solidão nesse mergulho. U…

SEDUÇÃO, de Adélia Prado

A poesia me pega com sua roda dentada, me força a escutar imóvel o seu discurso esdrúxulo. Me abraça detrás do muro, levanta a saia pra eu ver, amorosa e doida. Acontece a má coisa, eu lhe digo, também sou filho de Deus, me deixa desesperar. Ela responde passando a língua quente em meu pescoço, fala pau pra me acalmar, fala pedra, geometria, se descuida e fica meiga, aproveito pra me safar. Eu corro ela corre mais, eu grito ela grita mais, sete demônios mais forte. Me pega a ponta do pé e vem até na cabeça, fazendo sulcos profundos. É de ferro a roda dentada dela.

PoEma para FERNÃO

não é pelo céu cheio de estrelas sequer pela lua de transbordamentos e enchentes.  Não é isso. é antes por um roçar de antebraços perspectivas de verão e cócegas na eternidade. depois silêncio e enigma claustros e velas, um caleidoscópio de se perder e achar. mas não, não é isso. é talvez o curso de um rio misturado ao mar que escorrega da concha das mãos
e faz pororoca. é o que sobra de música e potássio. mar e ocaso, desenho no ar ou um desabafo sob a asa. mas não é. nem mesmo é quando aterrizo em lágrimas no meio da tarde.  não é isso. nem é por isso.  aprendi a obliterar a densidade escutar dentro das veias sob a árvore da cidade antiga; sem armas nem escudo pressuponho o amor; mas ainda não é isso. e nem é por isso. nem mesmo a abóbada,  a sombra da árvore a chuva ou sequer o mofo depois da chuva; é talvez a metade que sou depois, que sou agora: metade fonte  metade varanda metade horizonte  metade estrutura metade mecânica metade asa metade flor de cerejeira metade memória cortada pela metade; mas ainda não é iss…

E JÁ QUE O O AMOR ESTÁ NO AR... RESPIREMOS ;) - Sobre Quintana o Amor e o Espiar-se

... e já que o amor está no ar, lembrei de uma crônica que escrevi pro AN em 2010 e que claro, falava de amor. Um amigo havia me emprestado um livrinho de bolso do Mario Quintana e então.....

 Então eu sabia de Quintana e tinha na cabeça: “Sonhar é acordar para dentro”. E também: "Fechei os olhos para não te ver e a minha boca para não dizer... E dos meus olhos fechados desceram lágrimas que não enxuguei, e da minha boca fechada nasceram sussurros e palavras mudas que te dediquei. O amor é quando a gente mora um no outro." Essa última frase eu sabia na ponta da língua.  Considerado o poeta das coisas simples e com um estilo marcado pela ironia, profundidade e perfeição técnica, foi antes um pensador. Ele dizia: “ Minha vida está nos meus poemas, meus poemas são eu mesmo, nunca escrevi uma vírgula que não fosse uma confissão”. Dizia também: “Poesia é insatisfação, um anseio de auto-superação”.  Acho que é isso que acontece quando lemos poemas: nos colocamos diante de nós mes…

ADÁLIA E QUASAR

Quando os dois se esbarraram por acaso no meio da calçada, ele se surpreendeu quando ela disparou: “Posso cheirar você?”. Diante do silêncio ela se aproximou, tocou uma de suas mãos e se elevou. Então cheirou atrás da orelha, o pescoço e o rosto. Respirou o agridoce. Um cheiro que entrou pelo alto da cavidade nasal e disparou sinais. Então ele a afastou. (uma vida toda dentro). Estavam no meio da calçada, do dióxido de carbono e da falta de oxigênio. Ela quis ficar, mas ele segurou seu braço, e seus olhos bem dentro dos dele e a impediu. Refletida no gesto ela soltou sem despregar os olhos dos dele e foi embora sem olhar para trás. Ele, dentro do seu próprio cheiro e do que dela havia se misturado, ficou ali preso no momento. No rastro dela, nada, nem nenhum caminho que ele pudesse seguir. Então ficou. Ainda hoje, ao passar naquela rua se pode ver o homem. Estátua de pedra e cheiro. Dizem que ela mora ali mesmo por perto, mas não deseja ser reconhecida. Durante a noite, enquanto a rua…

GRAMÁTICA E DESENLEIO

experimentei uma vírgula depois de, em frente ao espelho, pronunciar alto: eu te amo. foi a vírgula ou o quê a perguntar: como assim? então experimentei outros parágrafos. neguei e afirmei impressões. em seguida, o ponto final, e o ponto e vírgula, que é uma coisa que garante uma ação futura depois de uma parada qualquer. pensei em fendas e sinapses. em pontes de eletricidade e informação. em ser arquiteta e mudar o desenho das pontes. fazer uma ponte entre um neurônio e outro. entre eu e você. pensei em títulos e em CoiSas Para DiZer Em TemPos De CólEra E A DesPeito Do AmOr, por exemplo: "entuba. come com farinha. dá tuas voltas. buliu com a onça….engole o choro. cê não é quadrado. cada um no seu quadrado. trouxe o motor ou temos que voltar remando? ué… mas… então…. eu? vixe, menino; quebrou o catulé… ué, bate panela. entuba! se ao menos tivesse...”. não é que tanto desembaraço desatou em visagem? 

voltei ao espelho
e num frêmito, era 
Outra já. você? ué menino… trouxe o motor?

OUTONIAS DE AMOR EM PROSA

sim, estou um pouco desgarrada; um pouco sonâmbula. é que tudo anda meio esquisito e sem jeito. mas sim. acho que se fosse comida, coisa dentro da gaveta e até um poema, claro que seria sorriso dentro dos olhos, boca na pele e som da voz tilintando dentro. acho que sim, se fosse desenho, haveria talvez mais que um canto em branco para preencher. fosse sonho, ainda que acordado, haveria um rubro no ar a avermelhar bochechas. talvez fosse um caminho, e a pele e um roçar de braços no caminho. mas se fosse sonho mesmo,  dentro do sono, depois dele talvez amanhã; talvez café. e se acaso durasse, sonho e vida, vapor, súplica e assovio; apesar da exatidão matemática e das flores rabiscando o chão, sim, ainda estaria aqui: cativa entre hábitos, maravilhas e aberrações.