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Mostrando postagens de Abril, 2017

EU SOU O MEIO 2

pelas fendas, frestas e espaços em branco, pelos fragmentos de uma ideia; enigmas sobrepostos por entre fissuras e luz, acendem. 
por isso, e talvez por outra razão qualquer (nem importa);
 sou melodia e desenho. vôo e ritmo.
sou qualquer coisa de verão. qualquer coisa de estação; um aroma bem aqui (sente). sou cor e luz que refrata, apesar das flores no chão;
 o nítido da luz quando espalha e esparrama entre as coisas: nas ruas por onde passo e até por sobre as águas. por sobre a ondulação.

por isso, e talvez por outra razão qualquer (nem importa);
refrato. mesmo com a luz assim, torta.
pelas fendas, frestas e espaços em branco, pelos fragmentos de uma ideia; enigmas sobrepostos por entre fissuras e luz, acendem. 
eu sou o que reflete e o que fica na sombra. o meio do caminho entre o que se fala. entre o que se cala. sou o meio.

OPALINA 2

há talvez uma opalina na matriz do olhar. uma alquimia que matiza em azul e faz desdobrar em enigma. depois, há no branco uma espécie de oscilação: sobrevivência e alguma brisa. há um permear pelo ocaso. pelo acaso de estar no momento. sol que cai. eu dentro. por isso garimpo e cavo a terra em busca do que freme e não do que brilha. de impulso e de ar. de sal e doce. porque preciso ter fome. isso nada tem a ver com a altura do morro ou as curvas do trajeto. nada que se possa calcular. se pondero e peso algo com minhas próprias mãos é porque talvez eu seja desenhada em ousadia e nitidez. todo contorno derivado do fluxo discreto da letra, pela forma integral da palavra e pelo que lhe dá impulso. no que sobra, sou caminho, cascalho que barulha sob meus pés e o barulhinho das ondas que chega no quintal de casa. sol que cai. eu dentro. na matriz de cada olhar, viagem e pernoites. dia seguinte, café.

CALMARIA NO QUINTAL

nasce desdobrado em tons de branco. nuances. um sentir sem atribuições.  uma espécie de mandarim. peculiar e morfológico.  suave perfume e beleza semidobrada em ciclos. uma imagem sob as pestanas. e mais ali, uma catenária a descrever um cheiro que resta ainda na roupa.  um sentir artesanal. fiado ponto a ponto. pão feito em casa. partitura.  um teorema de se enredar polifônica e numérica. e mesmo agora, debaixo da chuva que cai fina, desata e desanda em enigma e vida.  desdobra e faz luz em silêncio e cor.

SOBRE COISAS QUE ME OUTONAM

talvez porque pensamento e corpo um. talvez pelo descuido. por, pés descalços, adentrar o escuro. talvez pela surpresa. pela possibilidade que me atravessa. talvez pela falta. pelo que se avizinha e faz ninho. talvez por isso o mergulho e a transgressão. bailar na asa do que me venta. me voa: uma ciranda. um jogral. um poema, onde, serpente, sou meu avesso. olho, faço  vigília e descuido para ter acesso ao que dobra por dentro. toque de voz e ritmo. tensão de ajuste. de alastramento do que se vê e sente.

SOBRE HORIZONTES

O RESTO É SILÊNCIO

imbricada na memória e na rocha; urdida na prosa e no tempo; embebida em saliva e sal; sibilo.
se a hora se apresenta perpétua,deflagro as cores e os tons daquilo que fala. nada concreto além de um oco. mas zumbe.
em qualquer tempo, tem espessamento a dor de nascer: ato pretérito, manhoso e baldio. um sem número de rios invertidos: desvios e canais; o doce e o sal. 
talvez por isso misturo a areia da praia com o que resta de cinza; interrompo a fuligem no espaço e (preteritamente) talho o futuro em pequenas partes. definitivamente, o resto é silêncio.

SOBRE PÉS E PASSOS

então um dia você está mexendo com vasos e flores e um vaso cai displicente. cai no seu pé. cai no dedo do seu pé direito. você corre com o que resta de você. corre sem o exato da dor e se atira no chão da cozinha. a porta do freezer aberta e todo o gelo na dor. se demora ali. depois disso é percurso e vida. meses até que uma nova unha possa começar a nascer. renascer por debaixo da casca quase morta e tão afeita a você. mas eis que um dia ela cai. pode ser no ultimo dia do mês. sempre sem hora marcada. num embaraço de pé e passo. ela desdobra e revela a outra bem debaixo. você sente a vida. uma quase dor crescer e empurrar a pele. flor de desembaraço. de pé e passo. de espaço pro passo. é vida. e rompe.

LUA DE FLUXOS

talvez porque a lua nasce; se põe e se interpõe absoluta, pressinto: talvez a força de um escorpião querendo subir para o céu. sei que deve haver uma entre, talvez, sete ou oito mil maneiras de explicar esse estado de coisas (mesmo assim no escuro). mas, enquanto isso, entre esse tempo que foge e esse outro que nasce (mesmo assim, invisível) escuta esse poema:

O que eu amo em ti
não é esse jeito de cereja
e esse olhar de seis da tarde
não é essa mania de andar bolerodiando
nem mesmo a tua educadez
O que eu amo em ti
não é essa tua boca de vinho
nem o teu piano. Tocas. E nem é isso.
Os livros que leste, nem mesmo
o que sabes ou não sabes
Não é tampouco o teu ambicionismo
ou teu traço de desenho ou o compasso.
Nem teu andando em lenta marcha vagarosa
nem a doçura, a ternura, a candura,
a loucura, a pura frescura tua de alface...
nem mesmo teu cheiro de alface
teu cheiro de ar com um resto de perfume
nem teu carro (com ar condicionado)
nem teu cachorro
não, não é nem isso que eu amo em ti.

O que eu amo em ti

ROSA DE JERICÓ

algo tateia e insiste; gravita entre dois tempos e uma só promessa. a viagem é escrita e devaneio. é provar ser deliciosamente experimental e incompleto, enquanto resta no chão uma ideia antiga de maturidade. misturado imiscuido disfarçado ou declarado, o que sobra é saara: pedras e rochas esculpidas pelo vento mais o reflexo do sol que cintila criando miragens (acácias cheias de espinhos são camelos vacilantes vindo em sua direção). no deserto, a única doença endêmica é a loucura. o que sobra é  pura reinvenção. composição e poesia.