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EU SOU O MEIO

https://www.youtube.com/watch?v=s4Aa_KJFf6Y

4 de novembro às 09:42 ·  #BabitongaSessions#Poesia
Uma câmera na mão, uma ilha e um único sentimento: o fascínio pelas belezas e talentos de nossa terra. Essa é a proposta do Babitonga Sessions, onde artistas locais mostram obras de sua autoria em um cenário espetacular: A cidade de São Francisco do Sul - SC.
Nesta Session, Clô Zingali nos encanta, inspira e nos faz refletir recitando seu texto "Eu Sou o Meio".  2k Estúdio Curta, Compartilhe com seus amigos.
Vamos valorizar os artistas locais!

Queridos, o projeto do 2K Estúdio de 
André Glenn Post  



PROSA DESARTICULADA EM SI MAIOR

PROSA DESARTICULADA EM SI MAIOR 
se de acaso em acaso respiro e transpiro, virada em palavra sigo dentro de um tempo que me soa agora mais determinado. 

em meio ao que me varre e assusta deparo com a ideia de esvair e secar. da profusão de um mergulho na cheia da maré; da composição, da melodia e de juntar as coisas segundo um critério. 

em meio ao que me voa e assombra deparo com um olhar.  a beleza e o vazio de um olhar. no mais, mesmo que eu estranhe, talvez tudo seja leite derramado sobre natureza morta. choque e ausência de cor. vento e vertigem. 

se a vida é mesmo bobagem e irrelevância (é?), liberdade e impotência, eu sigo. acho que viver é inspirar e seguir.

SOBRE EQUAÇÕES

algo gravita e se instaura entre dois tempos.  a viagem é escrita e devaneio. é provar ser experimental e incompleto, enquanto resta no chão uma ideia antiga. misturado imiscuido disfarçado ou declarado, o que sobra é saara: pedras e rochas esculpidas pelo vento mais o reflexo do sol que cintila criando miragens (acácias cheias de espinhos são camelos vacilantes vindo em sua direção). no deserto, a única doença endêmica é a loucura. o que sobra é  reinvenção e poesia. 

SOBRE VAZANTES

o movimento caudaloso do rio; roda dentada do desejo; anoiteçe e adentra a terra
a metáfora passa a língua no pescoço que esquiva; dedilhante e obsceno.
mimese líquida na sombra do salgueiro; demoras e uma vastidão de urgências.
na emboscada, farpas de medo e redenção; 
um ímpeto na algibeira: 
nos olhos da seca, labaredas estrilam um desejo sonâmbulo  e o espanto: tudo é sangue.
E se fosse atrito ou tempestade? se fosse concha? Resvalaria? (Lamberia que nem cachorro do mato?)







DESVIRULANDO

de frente para o que me asculta, sob a lente que me captura, desvendo nos arredores punhados de inexatidão e vida. 

por exemplo:

aceito a ideia da mente como máquina de fazer relevâncias; 

ganhei imunidade nos sobressaltos. 

ainda sigo aberta e precipitada. 

exagero nas cores do que me anima e desarma

dou amplitude aos ossos e músculos que me carregam sob alcunhas diversas.

estou quase em paz. 

sou alguma ferrugem nos nervos, volúpia e aconchego; fertilidade e seca. 

em cada palmo de mim o sol brilha e se apaga

acato flores de cerejeira e revoadas de pássaros.

aceito e acato o que chega e o que vai. 

procuro nas coisas vagas, cadência; mas se for preciso, eu brigo. 

MADRIGAL MELANCÓLICO

O que eu amo em ti não é esse jeito de cereja e esse olhar de seis da tarde não é essa mania de andar bolerodiando nem mesmo a tua educadez O que eu amo em ti não é essa tua boca de vinho nem o teu piano. Tocas. E nem é isso. Os livros que leste, nem mesmo o que sabes ou não sabes Não é tampouco o teu ambicionismo ou teu traço de desenho ou o compasso. Nem teu andando em lenta marcha vagarosa nem a doçura, a ternura, a candura, a loucura, a pura frescura tua de alface... nem mesmo teu cheiro de alface teu cheiro de ar com um resto de perfume nem teu carro (com ar condicionado) nem teu cachorro não, não é nem isso que eu amo em ti.
O que eu amo em ti não é a tua preguiça esticada ao sol ensombreada de impressionismo não são os silêncios de que és feito nem o instante que povoas ou o mistério que às vezes te povoa, Não é esse ar letárgico, trágico, trístico, tanguístico, místico com que te sentas na cadeira ou acendes um cigarro somente para por um pouco de fumaça entre ti mesmo e o mundo
Não é tua voz irônica e sábi…

DA CALMA E DO SILÊNCIO, de Conceição Evaristo

Quando eu morder a palavra, por favor, não me apressem, quero mascar, rasgar entre os dentes, a pele, os ossos, o tutano do verbo, para assim versejar o âmago das coisas.
Quando meu olhar se perder no nada, por favor, não me despertem, quero reter, no adentro da íris, a menor sombra, do ínfimo movimento.
Quando meus pés abrandarem na marcha, por favor, não me forcem. Caminhar para quê? Deixem-me quedar, deixem-me quieta, na  aparente inércia. Nem todo viandante anda estradas, há mundos submersos, que só o silêncio da poesia penetra.
In Poemas da recordação e outros movimentos. Belo Horizonte: Nandyala, 2008

NADA

Crônica publicada no jornal A Notícia em 12 de novembro de 2009.

Nada, além de ser o contrário de tudo, a resposta que você dá quando perguntam: “E aí, alguma novidade?” (e você não tem nenhuma), o vazio do espaço (que sabemos que não é vazio), o que tem na caixa de chocolate quando você chega pra pegar e não tem mais nenhum; é também uma carta do tarô.
 Tirar o NADA numa leitura pode gerar decepção. A pessoa paga um tanto pra se consultar com a cartomante ou aguarda horas numa fila pra falar com um guru não sei de onde que promete dar todas as respostas e a carta tirada é o NADA.  Mas veja, fui fazer uma sondagem e localizei um significado da carta: shunyata. Um equivalente do inglês “nothingness”, que se você esmiuçar: nothing (nada) ness (partícula de negação). A negação do nada? O significado dela, basicamente, é o “tudo” que pode existir potencialmente no “nada”. Esse "tudo" são as possibilidades. O NADA pede um olhar para as coisas que estão ali contidas e que, talvez, nã…

ODE ao BALDIO

pelo sulco do olho verte uma lágrima. ato ridículo e baldio como carta de amor nunca escrita. uma lágrima furtiva. rútila. apenas para edificar a dor: dar equilíbrio e resistência.
galhofeira, insiste em frente ao espelho; um tanto lânguida (vês?). amarra com arame as lacunas para estar assim: súbita e obscena. 
dedilhante, suprime o ar da palavra faz cardume de desejos em franca apnéia; divide o mar com arraias: heterônima e abandonada. cerzida e voadora.
depois, farpa os espaços por puro capricho. coloca a palavra deserto no meio da palavra água pelo prazer de ver tudo desandar. por delirar vítrea, viscosa e febril.

SOBRE QUINTAIS

no quintal há abundâncias e abismos, adjacências e sustos; em meio a punhados de manjericão e cebolinha, em meio ao que desponta no caminho: bálsamo e perfume, arranhões e palavras:

 palavra empinada palavra sem rosto  palavra com dedo em riste; palavra que flutua numa tarde qualquer de verão; que faz alvoroço por dentro;
palavra que sobra depois de uma refeição;  palavra com perfume, palavra que abre um vazio;  palavra que faz poesia .
a menina corre para pegar e fugir das palavras que caem.

AH O AMOR, O TAL AMOR. É MINHA LEI, É MINHA QUESTÃO ;)

Como minha avó, eu poderia dizer que amor é quando, juntos, se come um saco de sal; ou quando de um limão, se faz uma limonada. (mas com ou sem açúcar? ); eu mesma poderia dizer que amor é quando se faz um poema. quando se faz uma canção... quando se canta uma canção, pode ser amor. 
Quintana diz: “O amor é quando a gente mora um no outro”. Danilo Caymmi pergunta “O que é o amor? Onde vai dar? Parece não ter fim. Uma canção cheia de mar que bateu forte em mim”. 

Há quem diga que amor é tirar da própria boca para alimentar alguém, fazer o bem sem olhar a quem. (mas o que é o bem, não é? sabe lá.) Amar é discórdia; e Lacan aponta: “Amor é dar o que não se tem a quem não é”. Acho lindo! (achar lindo acho que é amor).

 Eu amo.Tu amas. Nós amamos. Vós amais. Eles amam. Você ama. Amar é a força do verbo. Alguns dizem que amar é jamais ter que pedir perdão. Outros que amar é sofrer. É rir junto e então olhar dentro do olho do outro, e rir mais ainda. Amar é conviver. Morrer. Ceder. Calar. Passa…

EU SOU ENTRE e DEPOIS

pelas fendas, frestas e fissuras, pelos fragmentos de uma ideia; enigmas sobrepostos acendem. 
por isso, e talvez por outra razão qualquer (nem importa);
 sou melodia e desenho. vôo e ritmo.
sou qualquer coisa de verão. qualquer coisa de estação: um aroma bem aqui (sente). sou cor e luz que refrata, apesar das flores no chão;
 o nítido da luz quando espalha e se esparrama entre as coisas: nas ruas por onde passo e até por sobre as águas. por sobre a ondulação.
por isso, e talvez por outra razão qualquer (nem importa);
refrato. mesmo com a luz assim, torta.
pelas fendas, frestas e fissuras; pelos fragmentos de uma ideia; enigmas sobrepostos acendem. 
eu sou o que reflete depois da luz. o meio do caminho entre o que se fala e o que se cala. sou o meio.

PERSPECTIVA SUBLINGUAL

espio pelo canto do olho. espio e sibilo diante do espelho e da luz. sibilo debaixo das guelras. diante do reflexo. é anacrônico mais uma vez modelar o barro e o balanço. talvez um gesto anterior à febre. um rubro gesto de queimar. de atear fogo no abismo. só depois vem uma brisa que sopra as labaredas e me faz equivocada. baixinho conjugo verbos manuelinos, e num repente, tomo sem pestanejar, o trem noturno para Lisboa. nada mais de albergue espanhol ou balas de caramelo. o closet passou a língua nas coisas e esvaziou a gaveta debaixo da neblina. é então que aproveito a densidade e me embrenho: escavo, lapido e desvio do que faz medo. entremeios, atravesso e absorvo. pé e perfume no passo. um chão que não sai do lugar. um chão que me anda. me desanda e subtrai o ar, em metonímica  imprecisão.

SOBRE FERNÃO

Movimentos do Arqueiro Maior, recentemente, me colocaram na experiência de um voo do qual devo desfrutar pelos dias daqui em diante. Em tempos idos eu já havia lido "Fernão Capelo Gaivota". Do escritor americano Richard Bach, o ano da obra é 1970 e eu devo ter lido lá pela década de 80. Mas olhando daqui confirmo a ideia de haver um tempo certo para leituras fazerem sentido. Se ler Fernão naquela época fez algum sentido lá, eu não me lembro e daí quase concluo que não; ou se sim, o sentido estava soterrado debaixo de meu eu cebola. Enfim. Agora foi diferente. Agora fez muito sentido. E todo dia esse sentido se refaz e amplia. Feito o AmOr.
Quase todos os dias, principalmente naqueles em que caminho na praia, Fernão se recria diante dos meus olhos que o seguem ávidos. Fernão se desdobra em criatura que ama a liberdade e o voo. Um voar desatrelado da ideia de apenas servir à necessidade de buscar alimento. Um voo de desejo que o coloca em processo de solidão nesse mergulho. U…