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Mostrando postagens de Outubro, 2016

DA CALMA E DO SILÊNCIO

Conceição Evaristo, vencedora do Prêmio Jabuti do ano passado - categoria contos e crônicas, com o livro Olhos D’água, é uma das vozes mais fortes da literatura atual.


Da Calma e do Silêncio

Quando eu morder
a palavra,
por favor,
não me apressem,
quero mascar,
rasgar entre os dentes,
a pele, os ossos, o tutano
do verbo,
para assim versejar
o âmago das coisas.

Quando meu olhar
se perder no nada,
por favor,
não me despertem,
quero reter,
no adentro da íris,
a menor sombra,
do ínfimo movimento.

Quando meus pés
abrandarem na marcha,
por favor,
não me forcem.
Caminhar para quê?
Deixem-me quedar,
deixem-me quieta,
na  aparente inércia.
Nem todo viandante
anda estradas,
há mundos submersos,
que só o silêncio
da poesia penetra.

OUTROS MUNDOS :)

poemas memo.  por Sergio Cohn
Há um resíduo de futuro no vento, fotograma ante- cipado, montagem de fragmentos induzindo à cena. Como aquela árvore se curvando com- placente aos invisíveis pesos, como o mormaço predizendo chuva. Repito, há um canto anterior a qualquer canto, uma réstia, um eco primeiro, como um som que ressoa por dentro de cada palavra, como todo gesto se desenha e apaga, então novamente. Há o revés, o diáfano, o termo, beleza posta e perdida, o desen- cadeamente, assim como a sede do vapor por uma forma, assim como tudo retorna à imaginação por trás da cortina da memória.

ANARQUIPÉLAGO

ANARQUIPÉLAGO Submersas e móveis
ilhas isoladas
sob um sol submarino
no solstício de dezembro. Não há caravelas
nem argonautas,
apenas náufragos
em águas estrangeiras. Loucas e líquidas latitudes,
mil mares inavegáveis. Cinco ilhas livres:
entre elas, no fundo indizível,
vive,
no mar de fuligem, Le Bateau Ivre. Guarda (contrabando na carga)
palavras como âncoras corroídas,
ossos e um mundo fora de prumo.
O velame de velcro avisa
a vagabundos visionários e intempestivos
que só se navega de verdade
verticalmente. Ilhas em fuga
afundam a teoria dos conjuntos,
a falácia dos mapas,
o sentido da história,
os gozos memoráveis. Tantos portos,
tantas palavras
e nenhum destino. E se todo caminho for (clan)destino?  JOSÉ ANTONIO CAVALCANTI